terça-feira, 2 de maio de 2017

O medo de perder o parceiro pode se tornar doença e acabar com relacionamentos

O ciumento patológico não tem apenas medo de perder seu par, mas um desejo obsessivo de controlar seus atos, comportamentos e sentimentos

O medo de perder o parceiro pode se tornar doença e acabar com relacionamentos reprodução/reprodução
Foto: reprodução / reprodução

O ciúme foi o fator decisivo para o final do casamento de Bento Santiago e Capitu. Quando Escobar, melhor amigo do casal, morreu, Capitu chorou. Foi o que bastou para despertar a suspeita em seu marido. A desconfiança foi alimentada por episódios aleatórios que o marido ciumento atribuía à traição e somada à semelhança que Bentinho via entre o amigo morto e o único filho.
“Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança”, confessou o protagonista de Dom Casmurro, clássico da literatura assinado por Machado de Assis.
O ciúme doentio do personagem exemplifica bem os danos que a desconfiança pode causar ao relacionamento a dois. A trama do livro, não apresenta certezas de infidelidade nem para Bentinho nem para os leitores. Quem lê escolhe acreditar na traição de Capitu ou no delírio do marido ciumento.
E, apesar de a história se passar no século XIX, o drama poderia se desenrolar nos dias de hoje. A incerteza sem limites não é exclusividade da ficção, como ensina Márcia*, 49 anos.
– Acho que, se eu não fosse tão ciumenta, eu ainda estaria com meu segundo ex-marido – conta.
Tudo começou com um nome de uma mulher encontrado entre as anotações de trabalho do marido. A dúvida levou Márcia a investigar o cônjuge no serviço, no condomínio, entre os amigos das redes sociais. Ele jurou ser fiel, mas, mesmo sem uma única prova de infidelidade, o casamento de 10 anos ruiu.
Márcia não se casou novamente e hoje mantém um namoro a distância. Mas o medo patológico de ser traída segue atrapalhando:
– Pense em uma pessoa se corroendo de ciúme porque o “boy magia” vai para a rua com os amigos. Sem falar com ele, não durmo tranquila, fico angustiada.
Na ficção ou na vida real, quando passa do limite, o ciúme pode ser preocupante – tanto para quem sofre deste mal, quanto para pessoas que se relacionam com ciumentos. Muitas vezes considerado um “algo a mais” no relacionamento, quando faz com que um dos parceiros perca a razão por medo de ser traído ou abandonado, o sentimento pode até ser perigoso.
Você vive marcando presença? Não sossega enquanto seu parceiro(a) não liga para dizer que chegou em casa? Desconfia da própria sombra? Sempre tenta ler as mensagens no celular do namorado(a)? Respire fundo e continue lendo o texto. Confira se o ciúme que você sente – dependendo da frequência e intensidade – é o vilão do seu relacionamento.
*Nome fictício
Pode ser patológico
A velha afirmação popular de que o ciúme é “tempero do amor” não encontra eco nas manifestações doentias. O ciumento patológico não tem apenas medo de perder seu par, mas um desejo obsessivo de controlar seus atos, comportamentos e sentimentos.
O doente supervaloriza a dúvida e vai em busca de respostas. Mensagens em redes sociais, e-mails e registros telefônicos se transformam em incômodas evidências de que o outro tem uma vida “misteriosa”. Saber com quem o parceiro está e a que horas voltará são alguns dos questionamentos que podem causar brigas intermináveis. A vida a dois se transforma num verdadeiro martírio. A insegurança de um vira a prisão do outro.
– O ciumento patológico assume um comportamento de investigação desenfreada. Mesmo quando não confirma suas suspeitas, ele encontra motivos para gerar conflito, pois seu juízo crítico está prejudicado. Neste cenário, além do prejuízo para a relação a dois, há uma reverberação nas relações familiares, sociais e profissionais – diz a psicóloga Noemy Appel Dehnhardt.
É comum que o ciumento acabe isolando o casal. Foi o que aconteceu com Giovani, 21 anos. Aos 18, ele iniciou um relacionamento com uma jovem extremamente ciumenta. As saídas com os colegas de faculdade foram a primeira “baixa” da rotina dele. Depois, veio o futebol com os amigos.
– Ela contava o tempo entre o fim do jogo e o horário que eu chegava em casa. Uma vez, fiquei tomando uma cerveja e deixei o celular no carro. Quando voltei, havia 20 chamadas dela, que já havia ligado para minha mãe e minha irmã – conta ele, sobre o namoro de dois anos.
Quem tem um parceiro ciumento, muitas vezes pode demorar a perceber a gravidade da situação. É o caso de Débora, 32 anos, que foi casada por cinco.
– Depois de alguns episódios, vi que não era normal. Uma vez, numa festa, fui ao banheiro com uma amiga. Demoramos a voltar porque tinha fila. Ele invadiu o banheiro e ia bater na minha amiga, acusando de a gente ter um caso – conta, acrescentando que o marido suspeitou dela com o próprio irmão e com o padrasto.
Quando se deu conta, Débora não podia sair de casa. Um dia, fez as malas e foi embora da cidade, deixando apenas uma carta:
– Tive medo de ele me agredir. Só voltei dois anos depois, porque le já tinha outra namorada. Mesmo assim, evitei contato.
O medo não é infundado. Segundo a Fundação Perseu Abramo, o ciúme é o segundo motivo para agressões contra mulheres no Brasil.
Tem tratamento. Para os dois
Ciúme patológico precisa de tratamento. Conforme a psicóloga Marina Vasconcellos, isso pode ser feito por meio de terapia e, em alguns casos, com medicação. Porém, para que o doente chegue até o consultório do psicólogo ou do psiquiatra, é preciso do empenho do parceiro.
– Você percebeu uma situação de ciúme? Então fale, mostre ao parceiro. Tem gente que deixa passar para evitar uma briga. Convencê-lo a se tratar é difícil, porque, em geral, a pessoa não acha que é ciumenta – afirma.
A terapia pode revelar a causa da possessividade, que pode ser anterior ao próprio relacionamento ou estar associada a algum quadro psíquico mais complexo. E quem sofre com o ciúme do parceiro também pode precisar de terapia para entender porque se deixa dominar por alguém que cerceia sua liberdade de se relacionar com as pessoas e com o mundo.
Tipos de ciúme
Ciúme é um sentimento muito comum e universal. A psicóloga e terapeuta de família e casais Marina Vasconcellos explica que, resumidamente, trata-se do medo de perder a pessoa amada diante uma ameaça real – como uma terceira pessoa que queira ou possa interferir na relação.
– Se você está em uma festa, com o namorado ou marido, e uma mulher dá em cima dele; ou você perceber que ele está olhando para ela com alguma intenção, há um motivo, e é real. De alguma forma, você vai manifestar o ciúme – explica.
Quando o medo de perder o amado nasce sem motivo, por suspeitas infundadas, paranoia ou por desejo de controlar o parceiro, diz-se que é ciúme doentio. Nesse caso, é classificado por profissionais como “ciúme patológico”.
– A mulher passa batom e o marido já suspeita “Por que você passou batom? Vai encontrar o amante?”. A pessoa delira e, quando não está perto da companheira, fica imaginando o que ela está fazendo. É uma demonstração de posse, obsessiva e compulsiva – explica Marina.
Psicóloga, terapeuta e especialista em psicologia clínica, Noemy Appel Dehnhardt completa:
– É como se houvesse um pequeno demônio escondido em nossa mente, espreitando e dizendo que podemos estar sendo traídos e que não temos, para o outro, a importância e o valor que esperamos ter.
Fonte:  http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br
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