sábado, 14 de julho de 2018

Traiu uma vez, vai trair outra vez?

Outro dia li uma enquete cuja pergunta era: Você namoraria alguém que você sabe que traiu a/o ex? Muita gente dizia que sim, pois são contextos e relacionamentos diferentes, e muita gente dizia que não, porque “traiu uma vez, vai trair outra vez.”
Mais ou menos no mesmo período, vi uma conhecida perguntar em seu perfil do Facebook por que pessoas traem em relacionamentos não-monogâmicos. Alguns estranharam a indagação, questionaram o que seria traição nesse meio. Explicaram: “ué, a traição dos acordos feitos na relação”. Muitos disseram que era porque as pessoas levam costumes das relações mono para suas relações não-mono e acabam reproduzindo práticas, o que inclui a desonestidade da traição.
Buscando mais material e brainstorming pra esse texto, postei no meu Facebook: Pra você, por que as pessoas traem? As respostas foram bem abrangentes e vou tentar topicalizar e agrupar o que juntei a partir delas:
  • Cansaram da relação em que estão, não têm coragem de terminar, e buscam algo fora;
  • Insegurança;
  • Autoafirmação em geral, autoafirmação da masculinidade no caso de homens, vaidade;
  • Vingança;
  • Autossabotagem;
  • Medo de arriscar uma relação por outra;
  • Falta de empatia e de respeito;
  • Não ama a pessoa com quem se relacionam;
  • Inconsequência;
  • Babaquice, mau caratismo;
  • Monogamia (as pessoas teriam desejos que são incompatíveis com uma relação monogâmica);
  • Vontade de (auto-)descoberta;
  • Hedonismo, diversão, aventura;
  • Fetiches;
  • Desonestidade com a outra pessoa e com si própria;
  • Carência;
  • Irresponsabilidade;
  • Imaturidade;
  • Egocentrismo;
  • Não têm comunicação aberta, não sabem comunicar seus desejos;
  • Não há motivo, a coisa acontece e a pessoa só pensa depois;
  • Puro tédio.
Achei as respostas muito interessantes, mas sinto que é mais simples que isso: as pessoas traem por egoísmo. Já senti umas pedras batendo aqui, mas, antes que continuem a tacar, segura mais um pouquinho aqui comigo pra eu desenvolver essa ideia. Em primeiro lugar, a meu ver, a pessoa que trai não é uma grande vilã que merece ser infeliz pelo resto da vida por isso (a questão é outra e volto a isso mais no fim do texto). Quando falo de egoísmo, é porque acho que a questão central aqui não é o que motivou a traição, mas sim o fato de que a pessoa que trai não está disposta a abrir mão de alguma coisa — independente do que isso vai significar para a pessoa com quem ela mantém um compromisso.
Se você já transou com alguém na sua vida, você sabe a quantidade de oportunidades que a gente tem pra mudar de ideia e decidir não fazer. É o bate-papo, o toque, o caminho pra qualquer lugar que seja, enfim, não é uma coisa que simplesmente acontece. Ninguém cai em cima do órgão genital de ninguém. Há uma série de pequenas escolhas que levam a isso.

Pausa para o questionamento: o que é traição?

Até aqui falamos apenas de infidelidade e é comum que pensemos automaticamente nisso, visto que a fidelidade é um fator muito importante nas relações amorosas tradicionais. Há, no entanto, outros tipos de traição que, pra muita gente e em muitos contextos, têm um peso muito maior do que a infidelidade, mesmo em relações mono.
Essa associação quase automática é o que causa estranheza quando falamos de traição também no meio não-mono. Ora, podemos resumir traição como uma quebra, um descumprimento dos acordos do casal, isto é, fazer algo que você sabe que não está ok pra outra pessoa e que ela confia que você não vai fazer e por isso você faz escondido. Em relações mono, fidelidade é um acordo, portanto, não vejo diferença entre infidelidade e deslealdade nesse contexto. Em relações não-mono, os acordos são variadíssimos.
Muita gente (e talvez eu me inclua nisso) recorre a relações não-mono exatamente na expectativa de que nesse contexto não ocorram traições. Partindo do pressuposto de que há diálogo e abertura pra honestidade, em tese, não tem por que alguém trair. Só que, na prática, não é bem assim que acontece. Traição de confiança, quebra de acordos, é tão comum em relações não-mono quanto nas mono tradicionais. Volto aqui ao que li no Facebook da colega que postou sobre isso: seria uma transposição dos costumes monogâmicos para os contextos não-mono? Pode ser que isso ocorra também, mas não acho que isso dê conta de explicar a questão.

Por que as pessoas traem, então?

Não gosto de quando justificam traição dizendo que “monogamia não é natural”, afinal, caso isso seja verdade (e tenho ressalvas quanto a isso também), isso explica apenas o desejo, não a decisão de colocá-lo em prática. Na verdade, é esse meu problema com a grande maioria dos motivos listados por quem respondeu no meu Facebook: todos eles explicam apenas o que fez surgir a vontade e tratam a traição em si como uma consequência natural e direta dessa vontade, e não uma escolha consciente. Falta assumir responsabilidade pelas próprias atitudes.
Vontade é algo que a gente tem o tempo todo, por um monte de coisa. Todo mundo tem dias de grande irritação no trabalho, por exemplo, com muita vontade de xingar o chefe. Você vai lá e xinga o chefe? Pode ter gente que faz isso sim, mas acredito que a maioria de nós não. Toda vez que você sente raiva e quer bater em alguém, você bate? Quando sai temporada nova da sua série preferida e seu maior desejo é faltar o trabalho pra maratonar, você falta o trabalho?
As vontades que temos surgem por diversos motivos (tédio, cansaço, desejo sexual, vontade de aventura, necessidade de se descobrir etc.), mas o que nos leva a decidir fazer algo ou não já é outra esfera. Traição não é sobre sair com outras pessoas e é por isso que também se trai em relações não-mono. Ter uma relação em que sair com outras pessoas é permitido não resolve o problema exatamente por isso. Traição é sobre egoísmo. Não é porque tava apaixonado. Não é porque o relacionamento andava mal. Não é porque caiu na rotina. Não é porque tava bêbado. Não é porque não soube lidar. É só que teve algum desses fatores aí e, na hora de escolher fazer ou não, a pessoa priorizou as próprias vontades em relação à confiança da outra e fez. Simples assim.
Lá vou eu fazendo analogia com comida de novo. Suponhamos que eu esteja de dieta e tenha a opção, nesse momento de fome, de comer uma pizza ou uma salada. Quero a pizza, como a pizza. O que me levou a comer a pizza não foi a fome. Não posso usar a fome (o contexto da motivação pra comer) como justificativa, porque eu podia ter feito outra escolha. Eu podia ter comido salada que, seguindo a analogia, era o acordo. Eu escolhi descumprir o acordo. E não foi algo que simplesmente aconteceu. Eu tive que preparar a pizza ou usar o iFood, receber o entregador, cortar as fatias, pôr no prato…
Traição é escolher a pizza e culpar a fome. É sobre você ter uma vontade (que pode ser só um capricho ou algo muito sério e importante) que você acha que vale a pena pôr em prática, mesmo que isso vá ter consequências negativas. Você escolhe trair a confiança, você escolhe machucar, você escolhe o risco, você escolhe essa autoindulgência. A prioridade é sua vontade — e as consequências da realização da sua vontade ficam totalmente em segundo plano. Naquele momento, dane-se se vai magoar alguém. Deixa pra pensar nisso depois. E assim se segue.

Então quem traiu uma vez vai trair de novo?

Não necessariamente, mas também não dá pra esperar que não. Claro que as pessoas podem mudar e que nada é definitivo, mas 1) você só tem como saber testando e 2) pessoas só mudam quando têm motivo pra isso, ou seja, quando algo é mais importante e assim funciona como motivação pra mudar.
Conheço um rapaz que teve um relacionamento de mais de dez anos e traiu a mulher com cerca de trinta pessoas diferentes, nenhuma delas uma vez só. A não ser que ele esteja profundamente arrependido — e, mesmo assim, cautela é importante — , não me parece uma decisão esperta confiar em um traidor serial. O problema desse cara não foi estar de saco cheio do relacionamento, não foi tédio, não foi paixão… Acho que casos assim são só falta de respeito mesmo, não tem muito o que investigar. Sendo um homem, podemos até falar sobre o que é esperado socialmente de um, como, em muitos contextos, esse comportamento é considerado padrão etc., mas, na prática, no fim do dia, acho que isso era apenas desrespeitoso. Não acredito que um homem como esse teria seus problemas resolvidos em uma relação não-monogâmica, porque nunca foi sobre sair com outras pessoas.
Em um relacionamento tão longo, não teria me surpreendido se ele tivesse confessado já ter traído alguma vez, mas DEZENAS de seres humanos diferentes, diversas vezes, é só cretinice mesmo. E aí, em uma relação não-mono, não são os costumes da monogamia que se transportam, mas sim essa cretinice, que vai se manifestar em outras áreas. Uma pessoa que está cagando para os sentimentos daquela com quem ela se relaciona vai encontrar muitas formas de pôr isso em prática. A infidelidade era apenas uma, naquele contexto. Haverão outros.
Pessoalmente, eu não espero que um(a) traidor(a) serial mude, mas também não acho impossível. As pessoas aprendem, crescem, amadurecem, se arrependem, fazem escolhas diferentes. É imprescindível, no entanto, que a pessoa se preocupe em entender o que a levou àquelas traições para saber por que não deseja trair de novo e ter condições de pôr isso em prática. Culpar outros fatores (problemas na relação, por exemplo) é só uma desculpa que dá margem para repetir o comportamento.
Essa declaração da MC Carol é maravilhosa. Eu também não bateria na mulher, mas não sei se teria espaço no meu coração pra chamar um Uber pra moça caso ela soubesse que o cara tinha um relacionamento comigo. Mas o que mais gosto nessa postagem é que ela abre logo a possibilidade de diálogo, de tentar entender.
É uma verdade difícil de digerir, mas trair não é algo que apenas pessoas horríveis fazem, nem é algo que por si só define alguém como horrível e, por mais corretas que nos consideremos e mesmo que nunca tenhamos traído alguém, somos sim capazes disso também. Ninguém é imune. Isso é algo legal de se pensar quando julgamos de maneira muito pesada alguém que traiu. Todo mundo é passível de falhas, de se deixar levar por todas aquelas desculpas listadas no início do texto ou de nem saber por que fez o que fez. Não que sejamos obrigadas a perdoar ou voltar a conviver com quem nos traiu, mas cabe ter um pouco de empatia em relação ao que levou essa pessoa àquilo antes de tachá-la de horrível e pronto.
Acredito que a raiz dessa questão é a maneira como somos ensinados a nos relacionarmos com outras pessoas e a lidar com nossos próprios sentimentos. Ter vontade de fazer coisas que fogem aos acordos da relação em que estamos é normal e esperado. O problema é que a sociedade e o modelo de amor romântico que nos vendem não nos preparam para lidar com essas questões, não nos dão as ferramentas que precisamos para tratar delas. Sinto que 100% do que é listado como motivação para traição é algo que poderia ser resolvido com conversa e responsabilidade. Infelizmente, nem sempre estamos em condições de expressar honestamente o que sentimos ou de ouvir a honestidade das outras pessoas. Enganar é uma saída que parece mais fácil — e, a curto prazo, é — , mesmo que, no fim das contas, enganemos a nós mesmos.
Fonte: https://trendr.com.br
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